Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JARDIM PAULISTA, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, Irish, Arte e cultura, Livros MSN - alexsandromenezes@hotmail.com
Normalmente o baterista é uma figura enigmática. Lembro da definição genial que deram sobre The Beatles, ou “Os The Beatles”, como se dizia nas rádios de Botucatu. Falaram que a banda era composta por três gênios e um cara sortudo. Provavelmente a referência ao sortudo era ao baterista Richard Starkey, que algumas pessoas conhecem como Ringo Star.
O baterista é em regra um sujeito ensimesmado, ali solitário e oculto com seus pratos, bumbos e baquetas. Fica escudado por baixistas, vocalistas e GUItarristas. Enfiado ali no fundo do palco, ele tem a proteção necessária para converter a ira que desprende nos pratos em um som artisticamente sensorial.
George Harrison, o mais místico dos Beatles, deveria ser baterista. Concentrava as virtudes essenciais à arte da bateria, era discreto, tranqüilo, inteligentíssimo e inacreditavelmente tímido: “Eu amei de verdade os primeiros dias dos Beatles. Mas depois nós ficamos famosos e isso estragou tudo” disse meu segundo beatle preferido.
As naturais exceções ofendem as regras. Quando Phil Collins se exibia no Genesis com sua verve emocional ou John Bonham do Led Zeppelin com seus bemóis ensurdecedores; Dave Grohl do Nirvana dividia as atenções com o astro Kurt Cobain sem precisar dizer palavra – verbal – era um arraso.
Guilherme Tófano é um pouco disso tudo. Carrega a mística dos grandes bateristas. É frio diante da platéia, parece estar numa cápsula em vez dum palco, costuma falar pouco, e é tímido, virtude das mais raras quando pensamos num artista que precisa se exibir para exibir sua arte.
Aqui ele aparece numa performance de Tom Sawyer, da banda canadense “Rush”.
PS: A música é inspirada no livro As Aventuras de Tom Sawyero livro do escritor americano Mark Twain é um clássico da literatura infanto-juvenil.
Quem observou atentamente aos estrepitosos acontecimentos do Distrito Federal percebeu que o engenho aplicado na milenar arte da gatunagem contra o dinheiro público atingiu o pináculo. Sim, o governador da Capital Federal é uma espécie de Nemêsis, a deusa que nasceu dos deuses trevosos...
O bom ladrão, o ladrão de estirpe e gabarito assume o roubo para preservar sua qualidade de ladrão. Já os políticos são de outra classe de gatunos. Eles maculam até a ética precária que existe no código universal dos rapinadores do Erário.
Um dos políticos flagrados colocando dinheiro nas meias explicou candidamente que o fez porque não usa pasta. Carece de ironia para preencher esse baluarte? Não carece.
Claro fica que o Sr. José Roberto Arruda não é o único culpado pela falcatrua. O eleitor que o elegeu não obstante o escandaloso episódio de 2001 em que foi flagrado por violar o painel do Congresso, (juntamente com o saudoso ACM) também merece ser apenado – e efetivamente foi quando Arruda botou nos bolsos o seu dinheiro dele.
A esfera em que orbita o mundo político no brazil é tão tosca quanto seus acontecimentos. Alfim tudo acaba numa piada de José Simão.
Napoleão ensinava que todo oprimido queria ser opressor. No caso do povo que ao ver o corrupto atuando sente pena não pela ação em si, mas por não ser ele a atuar nesse picadeiro lamacento.
Meu querido Aristóteles que tanto fez para solidificar os princípios da política que me perdoe, mas o gênero humano não é apto para essa tecnologia superhumana. Dotado de privilégios e poderes o homem é incapaz de manter-se sóbrio, alheio as benesses que o dinheiro fácil, e ainda fumegando quando em espécie, pode propiciar. O sujeito pode até ser honesto. Pode até crer nos santos. Mas dificilmente converterá uma curva numa reta – moral.
Oscar Wilde perturbava àquela gente com máximas do tipo só há uma tragédia na vida; uma é não se conseguir o que quer; a outra é consegui-lo.
É bem normal que hoje em sempre as pessoas se preocupem muito mais com o excesso de gordura na barriga do que com a escassez do que há na cabeça.
Parece que não é culpa de Wilde esse desequilíbrio.
Como não parece culpa do dândi irlandês o fato de que a proliferação dos ditos “cursos de conhecimento” terem se disseminado pela cidade, como a tentar preencher uma lacuna do tamanho do Gran Canyon com um band aid.
Por hoje, a despeito da obrigação de se manter “sarado”, do pecado venial de se exibir acima do peso, viceja na sociedade o parecer ser inteligente, culto, informado. A inteligência pode ser inata, a cultura buscada, a informação comprada. Mas e o ser o que é?
Isso não importa.
Importa é, numa conversa, se meter a falar dum jazzista obscuro dos anos 30 morador do Harlen. Importa é ter a casca, ainda que o conteúdo seja mais ou menos igual ao interior dos buchos inflados: adiposo.
É simples. Meta-se a fazer um desses cursos sobre, digamos, os presidentes norte-americanos, e descobrir os desfeitos de um John Adams; as virtudes de Abigail Adams são irrelevantes. Há o natural risco de passar de culto a pedante, o que dá no mesmo. Mas antes ser-se alguma coisa nesse mundo hostil do que não ser nada; enfim.
A novela exerce hoje o mesmo papel que o romance exercia no século XIX; polariza, apaixona, aquece debates e discussões. É impressionante como o poder de um folhetim mobiliza uma nação inteira. Obviamente sua fenomenal audiência não interfere na valorização da cultura e do fazer pensar, como o romance de papel fazia.
Tanto é verdade que, diante duma platéia de 60 pessoas, excitei a assistência acerca dum episódio da vida de João Gilberto. João Quem? Das cinco pessoas que me derredoravam, NENHUMA fazia a mais vaga idéia de quem era o João, sim, o criador da Bossa Nova é um ilustre desconhecido para gente que sonha alcançar o topo da pirâmide social, já que o lugar estava repleto de “doutores....!”
A atual coqueluche é a novela das 21h00. Há a novidade duma mulher pseudo-negra ser a protagonista. Há a agonia da atriz branca, que está tetraplégica. Sobre ela, saiu nos jornais que a equipe chorou com sua atuação. Maquiadores, cenografistas, cinegrafistas. Outra polêmica é por conta da atriz negra, que parece que apanhou de joelhos da ex-mulher do atual marido. Naturalmente, os defensores dos direitos das pessoas negras, chiaram. Naturalmente, a imprensa acha que é patrulha excessiva.
O modo com que os escritores de novela manipulam as vontades e o senso comum do povaréu é um assombro. A técnica usada é, literariamente falando, um estrume. Não obstante o apuro no modo como sabem insuflar os sentidos, mas o sentidos de quem? De gente no quilate que ignora a existência de João Gilberto. Dê à trama mais complexidade psicológica. Dê ao enredo um viés existencial. Dê aos protagonistas uma aura obscura ou clarividente. Dê ao texto uma elaboração vernacular. Eis a receita para afugentar a audiência.
O assistidor de novela é como disse William Bonner sobre os espectadores do JN: eles são Homer´s Simpsons. Por isso, segundo Bonner, que o JN não podia colocar no ar matérias “complexas”, porque o telespectador não iria entender, porque é gente meio abilolada, suscetível e consumidora de qualquer tipo de idiotice, desde que esteja bem embalada, no invólucro das faces dos belíssimos atores da Globo. Necessariamente brancos. Até a protagonista que é negra, é no fundo, branca. Ela tem os traços da mulher branca, o lábio não espesso, o nariz afilado, os olhos amendoados. É uma negra que é negra apenas na cor.
Como no samba de Lamartine Babo, “O teu cabelo não nega mulata/porque és mulata na cor/mas como a cor na pega mulata...”
O pobre, a massa esmagadora da audiência, não quer saber de pensar, não quer complexidade preenchendo sua acerba rotina. Ele quer gozo, prazer gratuito, e todos sabem que isso de pensar é um ônus cerebral, já que por enquanto o humano ainda não aprendeu a pensar com o intestino. Certo está que é preciso entorpecer a plebe. O requinte é que hoje não se usa o pão e circo (panem et circenses) dos romanos, hoje se usa a própria cabeça dos súditos que é a maior lona onde se abrigam todos os espetáculos que se pode imaginar.
Ontem, atulhado de mente na cabeça, fui preencher o caos mental com o filme “2012”; a sessão começou as 22h00 e pouco e se não houvesse acordo prévio com o roteirista parecia que não ia acabar nunca mais.
Das Testemunhas de Jeová, efetivamente a mais sincronizada de todas as religiões de fulcro cristão, passando pelos hindus, maias, xintoístas e o escambau, todas elas flertam não apenas com o fim do sistema de coisas, mas querem o improvável, que é adivinhar a data que o Todo-Poderoso vai se cansar de nós.
O evangelho de Mateus, 24:36, informa que acerca do dia final nem os anjos do céu, nem Jesus saberiam... apenas o Deus.
Levi Strauss que precisou morrer esses dias disse sabiamente que o mundo começou sem ninguém (fato insofismável) e que terminará sem ninguém (fato sofismável).
As entranhas da Terra qualquer hora se cansa mesmo da gente e/ou nos devora a todos ou evapora tudo; nem arrisco dizer que isso carecerá duma intervenção divina. O planeta, esse mísero grão de rocha perdido nos confins do espaço estelar não pode e nem tem porque se achar tão importante assim, a ponto de querer que o Administrador Supremo se ocupe além do nosso aparecimento, também do nosso aniquilamento.
Transcorrido quatro parágrafos não sei se faço uma resenha do filme ou se faço abstração acerca do vazio.
Nem um nem outro.
Vamos prosear sobre a incandescência do apagão que deixou o país no breu das tocas. Ou então da filantropia maculada da Madonna. Ou então de simplesmente nada. Um poeta uma vez disse que
...nada sobre o invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro...
Percebes o quanto é ínclita a minha sordidez, meu sortilégio? Meus textos têm sido mais ou menos como a vida dos pobres; começam sem pretensão alguma, divaga sobre eloqüências, grandezas, indagações, e acaba assim, triste, paupérrimo e obscuro. É melhor eu sair do cinema, a sessão já terminou.
Seria muito bom, opostamente falando, se o pessoal que tem a genialidade para criar vírus de computador, usasse o mesmo gênio para “fisgar” o internauta incauto. Recebo coisas do tipo:
as fotinho que vc tanto queria
lembra daquela festinha? Segue as fotinha
Sinceramente quem é que cai numa esparrela mal montada dessas?
E os remetentes?
babylashortinho@hotmail; chupachupa@...
Não dá.
Evidentemente não quero prestar uma consultoria para os agentes informáticos do mal. No entanto, até (e talvez PRINCIPALMENTE) para praticar malefícios, carece-se duma certa arte fina, dum estilo...
Não que um título oferecendo acesso a fotos de festinhas proibidas ou esquecidas não atice o despudor que reside em cada um de vocês; por óbvio que a arte é artística, mas já não pega mais.
Um ou outro é criativo. Recebi outro dia, pelo e-mail da minha irmã, um anexo para um convite de um grande evento. Como ela já me mandou um convite assim, o repassei. Era um vírus. Mas já a ideia da festa, dos quitutes, o open bar (eufemismo chique para o ‘boca livre’), o enchimento da pança no rega-bofe gratuito cegou o meu bom-senso, que usa óculos.
Sou um otário digital.
Passagens aéreas gratuitas, dados requisitados pela Receita Federal, comunicado do Serasa, virgindade restaurada, cocaína com nota fiscal, aumento peniano, cura do câncer por telepatia...; melhor não arriscar. O risco de arriscar sem querer assumir o risco, será quando aquela pessoa que há tempos está no nosso radar, num momento de distração ou apatia, resolver te convidar para jantar: cuidado, melhor deletar, pode ser mais perigoso do que um vírus.
“Poeta poetinha vagabundo/ quem dera todo mundo fosse assim feito você...”
Esse samba do Toquinho e do heroi de Holanda me deu mote para me perguntar: que pessoa seria legal se todo mundo fosse igual a ela?
Eu tenho pessoas do meu cultivo que eu gostaria que todo mundo fosse como ela.
Gente que tatua no cérebro a importância da sensatez.
Como os invejo, como os admiro, eu que te vejo e nem quase respiro.
Dos mal humorados eu tiraria a picardia. Dos chatos, a quem devemos muitas das conquistas legislativas e sociais, eu daria um aparte.
Um mundo sem obscurantistas seria menos colorido. Os piores, em qualquer turno, tem a divina missão de realçar as virtudes dos melhores.
Mas como seria essa pessoa? Um misto de Carlitos e Walter Lantz não daria certo. Quem sabe um misto de magia com luz da lua.
A melhor pessoa teria de ter alma de poeta, coração de fiador, olhos de avó e quem sabe cabeça de metamorfose, para se adequar a tudo o que é necessário mudar.
Quem seria esta melhor pessoa?
Quem seria.
“...Poeta meu poeta camarada/poeta da pesada/do pagode do perdão/perdoa essa canção improvisada/em tua inspiração/de todo coração/ da moça e do violão...”
Samba Para Vinicius - Toquinho/Chico
PS: Diferentemente de Lennon que não aceitava ter o nome em segundo plano, Chico sempre prefere o seu em segundo. Paul nunca aceitou, mas engoliu. Lennon/McCartney. Toquinho/Chico. Tom Jobim/Chico/ Et Cetera/Chico.
“Minha candidata à Presidência é Marina Silva (...) ele é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como Lula que não sabe falar, que é cafona, que é grosseiro”
Isso é Caetano Veloso falando ao jornal O Estado de São Paulo. Lula claro, esperneou, jus esperniadi, como se diz na ciência jurídica:
“É muito engraçado porque tem gente que acha que a inteligência está ligada à (sem crase) quantidade de anos de escola que você tem. Não tem nada mais burro do que isso”.
Foi o que respondeu o presidente ao compositor, num evento do PC do B, em Sampa.
O presidente não tem só razão como muita razão. Aristóteles tinha os peripatéticos que o seguiam pelas alamedas de Mieza na Macedônia. Nós temos um presidente que apesar de analfabeto, é um professor de alta estirpe, não por ter razão nas asneiras que diz, mas por saber manipular o que dizem dele com uma maestria que deixaria os gregos boquiabertos, sem saber a quem seguir, se o filósofo ou se um jumento.
Caetano não chamou o presidente de burro, chamou de analfabeto, que é diferente de burro. Lula, na sua eficiente comunicação de massa, distorceu a fala do cantor e atraiu para si defensores exacerbados. Até a célula do Lula que ainda está por nascer será analfabeta, até mesmo seus asseclas sabem disso, os baba-ovos de sempre, todos sabem disso.
Ele usa esse mecanismo de locução porque sabe que vai dar certo. Sabe que a plateia é mais analfabeta do que ele, e então usa o pouco da inteligência que possui para ludibriar com arte e estilo.
Claro que ele tem razão na sua sofismática resposta de que escola nada tem a ver com o saber, a inteligência. Fedro, o culto escravo que chamou atenção até de um imperador romano, também, como Lula, não frequentou escolas, mas era além de cultíssimo, letrado e inteligentíssimo. Lula só faz sucesso no brazil porque mor parte de seus eleitores vê nele a si próprio. Lula é o espelho da ignorância nacional.
Como Lula, o povaréu tupiniquim não gosta de livros, não lê jornais, consome tele novela como se consumia religião na Idade Média; como Lula, o povo não tem exata noção da própria miséria; como Lula, o povo tem aquele asco pela cultura, se deleita diante de fenômenos de massa, não importando a qualidade do fenômeno, bastando apenas que seja de massa. Lula é analfabeto, mas como uma mulher bonita que tem a deficiência de ser antipática, ele compensa a atrofia cultural que possui com doses de “inteligência” de feira de rua, aquela que grita e o gritado é ouvido como um bálsamo.
“Amigos, perdi o meu dia!”, (amici, diem perdidi) resumia o bondoso (!) imperador Tito Flavio, filho do célebre imperador Vespasiano, aquele do dinheiro não tem cheiro. Tito exclamava isto quando ao acabar do dia verificava que nada havia feito de bom ou concedido alguma graça ao sofrido povo romano.
Não estamos mais em Roma, tecnicamente falando; objetivamente falando recuamos à data anterior a Roma, como se viu no caso da moça que foi ultrajada por uma turba de ensandecidos alunos que não gostaram do traje que a colega usava na faculdade Uniban, em São Paulo e a atacaram como se ela fosse a besta fera da hora.
Não consigo lembrar de época ulterior à Antiguidade para raciocinar a cerca de tamanha barbárie. A psicanálise quer entender que o caso versa sobre questões sexuais reprimidas, ou moléstias que a mulher sofre pelo simples fato de ser mulher. Fosse um rapaz à universidade trajado qual GO GO boy (não, não é latim) poderia ser objeto de tudo; curiosidade, gracejos, surpresa, excitação, mas jamais animosidade, porque o machismo mundano só enxerga o vulgar no feminino.
Nada obstante, é caso clássico de a vítima ser responsável pelo dano a ela causado. Não que ela não tenha o direito subjetivo de ir à aula em roupa sumária, mas não se pode imaginar adequado, sequer conveniente. O Direito, a lei e o bom senso a socorre no caso da agressão que é absurda, mas até receber este socorro moral e jurídico, Inês poderia estar morta, e isso direito algum tem o poder de reverter.
Num mundo atual tão doente quanto era o mundo dos romanos revividos à epígrafe, o que se pode esperar dos membros desse mundo é razoabilidade, um bem quase intangível em tempos tão irascíveis.
O respaldo técnico-financeiro a moça poderá alcançar nos tribunais, caso queira acionar judicialmente a universidade e os 700 silvícolas que a constrangeram. O que não terá reparo é a doença dela e a da turba; ambos carecem de um remédio caro, que a sociedade é incapaz de prover, porque ela mesma padece do mesmo mal.
Todos os sociólogos concordam que, em grupo, o humano se comporta como um animal selvagem, sem amarras que o impeça de praticar atos nefandos. Neste caso, um único ente social se comportou com inadequação, enquanto o grupo não fez mais do que a ciência antropológica já diagnosticou há séculos. Parafraseando o Eclesiastes, não há nada de novo abaixo do céu.
Eu, apesar de estar vivo, me divirto com tudo o que é correlato ao sombrio mundo da retórica. Para quem não lê porque não gosta ou não tem grana para a revista Veja há uma sessão dela intitulada “Sobe e Desce”. Com setinhas indicando os fatos e as personalidades que fizeram algo que mereça o aclive ou o declive.
Chico Buarque foi escolhido para figurar na coluna do “Desce”, porque assinou um manifesto em que intelectuais brasilianos apóiam os movimentos sociais, como os fora da lei do MST. O que foi interessante foi o texto se referindo ao compositor, está assim:
“Dono de um apartamento na região mais cara de Paris, o sambista deu para defender criminosos do MST que vandalizaram laranjais em São Paulo”.
Um bom e velho cataplower serve para demonstrar a estupefação. Primeiro que a revista tenta desqualificar ou pejorar o artista intitulando-o como “sambista”, termo que em regra denota um sujeito política e socialmente deficiente, não tem o charme de “escritor”, que é o que também ele é, com alguma excelência até. Segundo que não sei o que tem a ver o cidadão ter um imóvel em Paris e defender o que ele entende como justiça social.
Claro está que membros do MST se locupletam do apelo sensível à uma causa legítima para fazer dela uma plataforma de enriquecimento ilícito, inclusive com financiamento público, sem contar os crimes que comete, como no simbólico caso do trator devastando o laranjal no interior de São Paulo.
O doloroso no caso é que dá-se a esse tipo de associação um tom estanque; id est, se o sujeito é rico e bem sucedido não pode apoiar causas sociais, como Chico Buarque fez. O certo seria ele socializar sua casa na capital francesa? Isso diminuiria o amargor do detrator da revista? Talvez não.
A velha tese de que os defensores das causas sociais são hipócritas porque gozam das benesses da “direita capitalista” e apenas tremem com precavida distância dos espinhos da “esquerda socialista”, é tacanha. Todo mundo queria um apartamento em Paris. Parece que não carece de ideologia para ter um, apenas dinheiro, que não tem ideologia alguma, exceto o instinto do bolso.
Numa discussão dessas não há inocentes; a revista têm seus motivos mesquinhos para estuprar o MST que por sua vez dá ensejo para o estupro, uma vez que é uma organização devassada e liderada por gente corrupta, o que macula a natureza genuína e necessária de sua existência, ainda mais num lugar moralmente violento como o brazil. Chico Buarque é alheio a ataques, não se incomoda com eles. Pelo que já fez pela cultura do brazil poderia não se meter nessas polêmicas comezinhas, não me parece adequado defender um movimento que tem se notabilizado em cometer crimes.
Numa cena hilariante de Os Simpsons um vendedor de caixões entoa esse verbete quando Bart Simpson escorrega, cai num caixão e entra em pânico, arranhando o esquife para dele sair.
Numa crônica de janeiro de 1895 Machado de Assis faz a seguinte reflexão sobre esses dois seres tão distintos e tão próximos:
“Vivam os mortos! Os mortos não nos levam os relógios. Ao contrário, deixam os relógios, e são os vivos que os levam, se não há cuidado com eles. Morram os vivos!”
Só não chego ao tom rasteiro de dizer que a ironia é sublime porque deve haver entre os dois ou três atrevidos que me leem todo dia que ainda tenham algum amor por um vivente, e uma nostalgia por algum morrente. Nostalgia também é amor, só que com o ativo vencido. Pense em alguém que tem ação de uma companhia que faliu.
Todo esse exórdio (que palavra bela, não?) é para açular com açúcar sua imaginação, e também uma técnica narrativa bem gasta, porque se eu começasse o texto falando o atentado em Bagdá que riscou do mapa centenas de pessoas é de uma irracionalidade tão cruel e diabólica que nem é preciso dizer que o mundo não vale a pena...
Logicamente que isso seria nimiamente violento. Percebo também que o uso dessas palavras raras é um jeito de violentar sua disposição de ler o texto, caso seja um leitor vorazmente preguiço, ou, caso seja curioso, açule sua vontade de descobrir mais uma palavra nova (caso já não a saiba), que pode ser útil numa entrevista de emprego, num funeral, ou mesmo num rompimento amoroso. Não há ocasiões melhores para falar uma palavra difícil, já que o objetivo comum nessas situações é desejar não ser entendido mesmo.
Mas o Iraque...
O Iraque é uma poesia recitada por um poeta senil, que aprecia tingir os versos com dores e lamentos. Esse poeta obscuro não intenta uma recompensa, uma láurea, nada assim. Ele apenas deseja embotar a existência, o que eu considero um desafio para aquele lugar conflagrado, já que embotar a vida já carcomida por misérias naquela terra milenar é como operar um milagre em favor de um santo. Não sei se após transformar um monte de gente em estilhaços os terroristas retruquem contra quem acha excessiva sua brutalidade: “Ah, os vivos!”
“...Rio de ladeira/civilização/encruzilhada/cada ribanceira é uma nação/à sua maneira com ladrão/lavadeira honra tradição/fronteira munição pesada... São Sebastião crivado/nublai minha visão/na noite da grande fogueira desvairada...” – “Estação Derradeira”, Chico.
A bela capital fluminense agoniza novamente em meio a tiroteios, fuzis, helicópteros abatidos feito moscas, e a incredulidade dos nativos, que olham aquela calamidade com olhos infantis.
A cena do cadáver dentro do carrinho de supermercado correu o mundo, como símbolo do descarte não da vida, mas da banalidade comercial em que a vida se transformou; morre-se e o morto é carregado feito uma compra, nesse imenso Carrefour criminal que se transformou há décadas a cidade flumen (rio, em latim).
O descaramento dos governantes municipal, estadual e federal é o que corrói e o que lastima. Elevada à sede dos Jogos de 2016, tanto o alcaide quanto o governador argumentaram que Londres ao recente anúncio de sua sede para 2012, também foi objeto de uma tragédia, no caso os atentados patrocinados pela Al Quaeda, em 2004.
Os políticos falam isso sem ser interpelados judicialmente porque somos um sub-país com laivos de grandeza. Eles argumentam isso impunemente porque seus eleitores são acéfalos, ou como bem retratou Lucius Sergius Catilina, célebre líder de uma conjuração contra o senado Romano:
“O povo romano é um corpo robusto, mas sem cabeça; serei essa cabeça!”
No brazil é igual. Há um corpo desgovernado, que é o povo. E esse povo descerebrado e por isso sem neurônios para eleger uma cabeça, elege um intestino, quando muito uma bílis para o guiar, e o resultado não pode ser outro senão o caos.
E a tragédia tende a ficar mais trágica. Boa parte dos atuais políticos e artistas em ação hoje é da formidável geração de 40, que elencou gente com o talento de Chico, Pelé, Caetano e Gil; Fernando Gabeira, Michel Temer (apesar do PMDB, é um emérito jurista) e que tais, agora imagine quando entrar em ação a turma escabrosa que foi educada pela Xuxa...
A bela, bela, bela, negra, negra, negra atriz Camila Pitanga me deixou intrigado com isso; isso é isto:
“As pessoas quando estão de uniforme ficam invisíveis”
Cataplower!
Mil vezes cataplower.
Parece que a moça faz papel de empregada doméstica numa novela e por conta disto fez uma intervenção no “Fantástico”, em que, trajada de faxineira, as pessoas não a reconheciam, não obstante sua exuberância estética, não obstante a benesse da fama que a ilumina.
Estava lá o corpo, mas destituído do glamour, porque glamour não é apenas um estilo, o glamour é a alma do ser contemporâneo.
Numa reunião de trabalho que fiz esses dias, o dono da empresa, meio a brinca, meio a sério, disse que caso tivesse um Porsche, não daria bom dia a ninguém, porque, regra quase geral, quem tem Porsche ou moedas símiles a esta, não enxerga nada além de si mesmo.
É possível que esse barco em que navegamos todos nós venha a naufragar e até pode naufragar, desde que seja com classe.
Chega a ser de tal sorte cômica essa obsessão pelo poder, pelo “ter” em vez de “ser” que os papéis são trocados; não importa se o detentor do glamour “seja” por essência ou por berço glamoroso; nada, ele precisa “estar” glamoroso todo o tempo, sem vacilos, sem encenações, já que esse tipo de necessidade não tolera performances, nem engodos: é-se glamoroso por externar o status, não por zombar dele, não por mofar dessa espécie de santificação pagã que rivaliza e não raro supera aquela outra santificação que só tem validade no pós morten e a morte não insere glamour nenhum, em quem quer que seja. Santificado seja o nome do glamoroso, amaldiçoado seja aquele que zombar de seu relicário, amém.
- Sr Hitler, isto que vamos fazer é produto duma sessão espírita?
- Não, absolutamente.
- Um exercício literário?
- Mantenho a negativa.
- Ok. Minha lista de perguntas é extensa. Extenssíssima.
- Não perca tempo; ande.
- O senhor é acusado de crimes de lesa-humanidade. É a figura mais odiada do mundo, depois do diabo. Há até quem os equivala. Ou os homonime.
- Sandices. Não cometi crime algum, quis mudar a face do globo, que parecia apodrecido.
- Certo... mas matando gente por atacado?
- Não matei ninguém.
- Só os judeus somam...
- Falácia! Falácia! Falácia!
- ...Seis milhões.
- Falácia! Falácia! Falácia!
- Não era um tanto desvairado o projeto nazista?
- Não! Era coeso, humano e visionário. Um sonho de mil anos!
- Humano?! Qual o seu conceito de humanismo?
Nesse instante chamaram de volta o genocida austro-alemão, estava magro, abatido; era uma ruína ambulante. Parecia ferido no orgulho; se apresentou à entrevista de pijama cinza, roto, os ossos proeminiam sob o tecido repleto de furos, que deixavam à mostra grandes e purulentas chagas que fediam sem o menor pudor. Nas costas marcações em código o identificava como o prisioneiro 00023B; antes de entrar no calabouço, olhou o entrevistador e o sufocou com um desabafo:
- Vou reinar por mil anos. Neste lugar, apesar das pancadas que recebo, não encontro oposição, nem sou obrigado a lidar com os palermas dos anos 40...! palermas! Idiotas! Escute!: Aqui acima dessas ilusões a organização das coisas...; ah! não empurrem! Vão ao diabo! Não me empurrem! Não me empurrem!
E desapareceu, deixando o entrevistador com a cara na parede, entre incrédulo e intransigente com a própria realidade, que lhe pareceu realmente muito real, mais real até do que costuma ser quotidianamente.